Um pouco mais de azul

quarta-feira, fevereiro 18, 2004

"Quase" e "um pouco mais de azul"

O peso da cabeça desanuviou um pouco. Amanhã já devo estar bem, ou suficientemente bem para fazer de conta que efectivamente o estou. O trabalho avançou aos bochechos, claro. Que se lixe. Apetece-me mais vir aqui e declarar guerra ao “quase”.

Nem de propósito, tinha eu pensado no nome para este blog quando recebo, por mail, um texto de Luís Fernando Veríssimo intitulado “Quase”. Não vou transcrevê-lo aqui, apenas dele extrair algumas frases que subscrevo totalmente: “Ainda pior que a convicção do não, a incerteza do talvez, é a desilusão de um "quase". É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi. (…) Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas idéias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono.”

Vivi anos no “quase”. Deixei-me arrastar pelo morno, pela esperança no que um dia seria mas nunca chegava a ser. Deixei de esperar, desacreditei, pus um ponto final. E, por esse motivo, busco “um pouco mais de azul” - pedaço de verso "roubado" ao poema de Mário de Sá-Carneiro de que tanto gosto, e que não resisto a aqui publicar:

QUASE

Um pouco mais de sol – eu era brasa,
Um pouco mais de azul – eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho – ó dor! – quase vivido...

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo... e tudo errou...
— Ai a dor de ser — quase, dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...

Momentos de alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol — vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...

Um pouco mais de sol — e fora brasa,
Um pouco mais de azul — e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...


Chega de falta de golpes de asa. Chega de receios de ir além. Quero o sol, o azul que me neguei, quero ir além do quase. Neste blog, vão ficar desabafos, desânimos, esperanças e desesperanças, alegrias e tristezas que irei sentir nesta nova fase da minha vida. Preciso deste espaço, neste momento, para alinhar pensamentos, para ver claro ao escrever. Como o meu pai sempre gostava de dizer – nota à margem: gosto de citar o meu pai… Tanto discordamos, tanto ele me irritava com o seu feitio reaccionário(quem me dera ouvi-lo a dizer uma das suas frases, agora…), mas como gosto e me orgulho do meu pai e de encontrar em mim tanto dele! Mas já estou a divagar; um dia falarei do meu pai, agora é de outro assunto que se trata. Dizia eu: como o meu pai sempre afirmava, citando, creio, Bossuet (já vi como citação de outro autor, mas o meu pai falava de Bossuet e ele devia saber), “tout ce qui se conçoit bien s'énonce clairement”. Eu não sou capaz de passar algo a escrito sem o compreender; ou, pelo menos, ao escrever vou compreendendo, vai-se fazendo luz no meu espírito.

Por tudo isto, eis o meu blog. E a tal explicação inicial aqui fica. Quem por acaso aqui vier espreitar, sabe desde já com o que poderá contar, e fugir a sete pés. Ou não fugir e até mandar um mail, quando eu conseguir descobrir como se “bota” ali ao lado o meu endereço!


 
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